Meia-noite em Betim

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Por Cleonice Machado

As pessoas costumam ficar com falta de ar quando estão com crise de ansiedade. Eu fico com falta de palavras. E como é desesperador não ter a companhia das palavras! Como é desesperador passar os olhos por todos os livros que temos e, ainda assim, não encontrarmos as palavras necessárias para dizermos o que queremos. É como se todas as páginas dos livros estivessem em branco. E elas estavam. Sim, quando acordei, hoje, elas estavam.

Meu único contato com as palavras, no dia de hoje, foi bem cedo, assim que acordei, ou enquanto dormia, não me lembro bem. Só consigo me lembrar de palavras sussurrando, ao meu ouvido: “falta um dia”. Acordei, e ainda vi as palavras dançando ao fazerem a curva enquanto saiam do meu quarto. Depois disso, meu dia foi marcado por uma busca incessante por palavras. Aquela busca desesperadora pelos ingredientes da ceia de natal, para sair tudo perfeito, tudo perfeito, para que quando o relógio marcar meia-noite, estejamos preparados para recebermos o natal. Ou, ainda, a busca pelos foguetes, para serem devidamente usados na hora de saudarmos o ano que chega.

Mas a minha procura pelas palavras não é por que eu queria descrever momentos natalinos, a minha busca pelas palavras era por que faltava um dia para o aniversário da Isabel. Também não sei o que dizer sobre a Isabel. Eu não sabia o que dizer, quando acordei, e ainda não sei. Fui abandonada pelas palavras. E o que há de ser da vida de uma pessoa sem as palavras? As palavras bombeiam a minha vida como o coração bombeia o sangue. Tive de me refugiar nos silêncios. No silêncios das músicas sem letras (não sei se já disse, mas além de deixarem os meus livros em branco, as palavras levaram a letra de todas as músicas, levaram minha capacidade de dizer “bom dia”, mas um aceno afirmativo com a cabeça conseguiu cumprir esse papel. Não com a mesma eficiência, não com o poder mágico das diferentes entonações que adoto ao desejar bom dia para diferentes pessoas).

Confesso que pensei que as palavras estivessem se escondendo de mim nos silêncios. Pensei que daria de cara com elas, ao correr para lá. Elas não seriam as primeiras a fazerem isso. Eu sempre faço. Eu me escondo de mim nos silêncios, e me embebedo de silêncios até que, deles, as palavras gritem, e se libertem, e me libertem, e me alimentem. Estou faminta de palavras. Faminta de palavras que me ajudem a falar sobre a Bel (eu já falei o nome dela, ali em cima, o aniversário dela é dia 23 de maio. Sim, já falei. O nome dela é Isabel. A redução vocabular é bem óbvia. Tá, pode chamar de apelido. Bel. Mas eu gosto de chamá-la de Belzinha. Se eu quiser chamá-la de Isa, chamarei, mas, para isso, preciso que as palavras apareçam.)

Estou farta de mim. Encontrei muito de mim nos silêncios pelos quais andei, hoje, e me alimentei de mim, mas não consegui encontrar as palavras. Procurei por elas, porque elas seriam como o vinho que acompanha um lombo, e fariam com que eu conseguisse engolir as porções de mim que andei degustando ao longo do dia. Imagino que a Bel, enquanto comia, hoje, tenha pensado que era o último dia que ela almoçaria com 23 anos. Não, eu não imagino nada, porque as palavras são a minha imaginação, e eu estou orfã de imaginação.

Toda hora que eu ouvia um barulho, dizia (ou pensava que dizia. Vocês precisam entender que eu estava sem palavras, que minha boca só se mexia, na esperança de que as palavras saíssem) “palavras, são vocês? Podem entrar”. O vento ria de mim. O sol também sorriu, mas foi um sorriso escondido, discreto, entre nuvens. As nuvens não pouparam gargalhadas. Elas acharam minha desesperada tentativa de encontrar as palavras algo absurdamente cômico. Cá pra nós, eu também sorri. Um sorriso meio sem vida, meio sem contornos vivos, mas, ainda assim, um sorriso. Não, eu não sorri. As palavras levaram o meu sorriso também.

Lá pela metade do dia, me ocorreu uma ideia. Uma ideia um pouco absurda, mas é por isso que eu acreditei que ela pudesse ter, realmente, acontecido. E se as palavras tivessem levado a Bel para passear? Sim, as palavras a levaram para um tour pelos seus 23 anos. Por isso, elas se reuniram como fãs ensandecidos se reúnem para verem os shows de seus artistas preferidos. Abandonaram os livros, as letras de músicas, e não aceitaram ser aprisionadas em poesia. Andar com a Bel, no dia 22 de maio, seria a verdadeira poesia. Aquela poesia inspirada pelas musas que inspiravam os aedos das epopeias homéricas. Aquela poesia performática. Aquela poesia que ressalta que a voz é corpo.

Ah! palavras, não precisam me dizer que passearam com a Bel por Westeros, Hogwarts, Valinor, País das Maravilhas, Discworld e por tantos mundos não nomeáveis, e por tantos mundos inimagináveis. Vocês fizeram melhor do que eu faria. Por isso, me abandonaram, por isso me deixaram procurar por vocês durante todo o dia. Porque enquanto eu procurava por vocês, eu não atrapalhava o peculiar momento que vocês tiveram com a Bel. Mas eu não gosto de me sentir excluída, eu não gosto de não fazer parte de algo tão maravilhoso. Eu não gosto de não fazer parte da vida da Bel. E sem vocês, palavras, eu não faço parte de nada. Não tenho um lugar no mundo, não tenho um lugar na vida da Isabel.

Voltem aqui, palavras, porque, em alguns minutos, Fitzgerald vai me convidar para embarcar em um automóvel e me levar para dar um demorado abraço na Bel, e dizer-lhe o quanto eu admiro-lhe, e fico feliz por ter uma amiga como ela. Voltem, palavras, porque Paris só é uma festa porque vocês deixaram que Hemingway assim escrevesse, porque vocês se deitaram com ele, em uma cama bem confortável, e geraram esse livro, por quem os sinos dobram. Voltem, palavras, porque vocês deram vida ao mar no qual o velho pescador travou a batalha de sua vida (que metaforiza a própria batalha que todos nós, seres humanos, travamos) porque vocês foram o anzol que lhe permitiu pescar. Voltem aqui, palavras. Voltem aqui, palavras, porque já é meia-noite em Betim, e hoje, dia 23 de maio, dia do aniversário da Bel, enquanto todos nós nos levantamos, para aplaudir, de pé, essa maravilhosa mulher, o sol também se levanta.

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