Fado de fada

6 Comentários

Pedro Rocha

É safada, essa fada…

Se ela voa, onde andaria ou se não anda onde ela pensa
Eu apenas acho
Que ela pensa e voa em mim ou se apenas anda eu acho fácil

É safada, essa fada…

Se não fosse essa fada quem é que se safaria
Só uma ponte sobre a Bahia
Que separa com esse papo que já sabia que não dava no pé
E acaba ficando por aí nesse papo barroquino
Beijinho encara aí com esse cara aí
Que te diz que sabe tudo de 100 anos de cinema
Esse cara é cabeludo mas não te leva a nada!

Eu sim
Te cato por esse lado, foco na cama e te afogo fada
Na minha coleção de fotogramas!

Anúncios

[Poema] Quando fico de pau duro

1 Comentário

Cazé Peccini

Quando fico de pau duro
Sinto-me deus
Não deus como Zeus no Olimpo
Deus como Jesus
Como o homem no garimpo
Ao achar a maior pepita
Como o médico que o cardíaco ressuscita
Sinto-me deus, sinto-me forte
Sinto o poder
Toda a grandeza de ser de um povo
Sinto-me ovo fecundado
Como um viado ao dar o rabo
Sinto-me alado, sinto-me sábio
Sinto-me luz cuspida de meus lábios
Sinto a explosão dos teus
Quando me coloco deus
No meio de tuas pernas

Vida/Tempo

Deixe um comentário

Viviane Mosé

Eu acho que a vida anda passando a mão em mim
Eu acho que a vida anda passando a mão em mim
Eu acho que a vida anda passando
Acho que a vida anda passando
Acho que a vida anda
A vida anda em mim
A vida anda
Acho que há vida em mim
Há vida em mim
Anda passando
Acho que a vida anda passando
A vida anda passando a mão em mim
E por falar em sexo
Quem anda me comendo é o tempo
Se bem que já faz tempo
Mas eu escondia
Porque ele me pegava à força
E por trás
Até que um dia resolvi encará-lo de frente e disse
Tempo
Se você tem que me comer que seja com meu consentimento
E me olhando nos olhos
Eu acho que eu ganhei o tempo
De lá pra cá ele tem sido bom comigo
Dizem que ando até remoçando

Ópera de Pássaros

1 Comentário

Chacal

A objetividade da fotografia é uma falácia.
Erram os que acham que ela retrata o real.
O que há é que quando o fotógrafo diz:
– Olha o passarinho!
Uma ave de asas oblongas sai de dentro do olho da câmera
Com um embornal de pinceizinhos e uma paleta de cores
Sobrevoa a cabeça do fotógrafo
Sobrevoa a cabeça do fotógrafo
E pousa sobre seu ombro esquerdo.
De lá, pinta a cena.
Em suma, a fotografia é uma ópera de pássaros.

Tudo de bom para todo mundo

1 Comentário

Michel Melamed

Pra quem não sabe desenhar gente é uma bola
com dois pontos é um traço assim
e outro assim
e outro assim

Queria me dissolver na água
porque mais que tudo
mais que você amor de minha vida
que papai mamãe e Deus
e sexo e dinheiro e chocolate
eu amo a água
as coisas podem acontecer naturalmente

Mas, bem,
piada não é exatamente a piada em si, ela em si, mas quem conta:
tem gente que conta determinada piada e não tem a menor graça
tem gente que conta a mesma piada e não consegue nem terminar
sabe como é…

acontece muito de me dizerem tchau e eu ouvir te amo meio italianado
(tchau tchau tchau tchaum tchaum teaum teaumo teaumo te aumo te amu te amo)

Eu aproveito a oportunidade para renovar meus protestos de elevada estima e consideração
atenciosamente

Existem coisas que acontecem muito
outras só funcionariam todo o dia
mas todo o santo dia mais todo o santo
isto é muito difícil

Exemplo:
É impossível um lapso cocacólíco
quando é que alguém diria
“Como é mesmo o nome daquele refrigerante…
aquele preto… parecido com a pepsi”?
nunca! seria imperdoável
você pode esquecer a luz acesa,
a idade do seu pai, o que era mesmo?
tudo bem é aceitável
mas o lapso cocacólico está em extinção
existem coisas que não podem ser magoadas

Tem gente que a gente conhece há um tempão e nada
e tem gente que a gente mal conheceu e sente como se fosse um tempão
você sabe não é?

O meu negócio é rotular,
destravar no interior
não existem coincidências
existem, sim, N formas de se dizer a mesma coisa
de se dizer a mesma coisa existem formas N
formas de se dizer existem N a mesma coisa
mesma se a coisa N dizer formas de existem

Tudo é muito previsível
dia seguinte à eleição?
foto na capa do jornal com candidato sorrindo em cabine
morte do Roberto Carlos?
manchetes tipo ‘O TRONO ESTÁ VAGO’
ou ‘O REI ESTÁ MORTO, VIVA O REI’
ou quando da pós-liberação do jogo do Brasil
o surgimento de uma ‘Nova Las Vegas’ no Mato Grosso

Deixe-me em paz, eu nasci ontem demais
mas não é por isso que ainda não
escrevi a coisa mais bonita que escrevi até hoje,
não é por isso que comunico com pesar o falecimento da inesquecível
nem é por isso que gosto de pessoas gentis e pés
(especialmente os de dedos quase redondos)
instituto médico é legal
dentista é ruim, tem motorzim motorzim motorzim
que faz bzzzzzzziiiiii

(o problema não é ter vontade de fazer tantas coisas
e sempre perceber que não se tem o equilíbrio necessário
o problema é estar sempre atrás ou adiante de si mesmo
e é lógico: os aniversários)

Agora, amigo a gente vê
quem é nos momentos difíceis
eu tenho muitos colegas,
um montão de conhecidos
mas amigo? amigo mesmo?

Nunca aconteceu de me perguntarem ‘o quê?’ e eu entender ‘ok’

Amando até os dentes, armado de poesia

Deixe um comentário

André Pessoa

Estou amando até os dentes esta desmelancolia prateada que vem de um sorriso qualquer, negro, num dia sem trem.

Estou armado de poesia contra tudo que se chama medo, ignorância, insigniplicância que proclama, mas policia o sol.

Estou recomeçado e branco, inverso ao me filiar ao vento, sem o sexo frio da culpa.
Pardopnaptopsia gótica da noite!

Estou estando e sereno, somado àquilo da raça.
Um pintor legal merecia transar minha caleidoscopia.

Estou na quinta estrofe, sem pai nem mãe no mundo.
Agradeço a quem, por amor, traduzir meu mergulho no mar.

Alívio do dilúvio

1 Comentário

Tatiana Dauster

Eu vi o nascer do sol
Vi o cair da chuva
Pra nascente desse rio que há tanto procuro
Nunca ando só
Sem a minha luva
Nunca grito por escuro quando eu quero ajuda
Navegando em silêncio um filme em preto e branco
Sinto frio na espinha com meu próprio canto
Se me assunto no espelho quando choro tanto, tanto
Comprei um gravador
Ando fazendo fita
Tua filha me pergunta
Não tenho respostas
Quero um lampião
Escuto atrás da porta
Esse sumiço me incomoda mas eu dou as costas
O alívio do dilúvio vem me embreagar
Amarrando o cadarço fito o horizonte
E por entre os dedos sinto minha vida evaporar